sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ABRAÇOS PARTIDOS

Texto crítico sobre o filme Abraços Partidos (2009), de Pedro Almodóvar - escrito para disciplina de Crítica Cinematográfica | Especialização em Cinema | UNISINOS

Mateo Blanco às vezes se chamava Harry Caine. Lena se prostituía, mas queria ser atriz. Judit era amante, mas teve que se contentar em ser funcionária. Ernesto resolveu se chamar Ray-X depois da morte do pai, o famoso empresário Ernesto Martel. Esses são alguns dos personagens do mais recente filme de Pedro Almodóvar, Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos). Filmado com a tradicional competência dramática do diretor, o roteiro nos revela as relações entre esses personagens em um pano de fundo auto-referencial, enfocando a duplicidade de papéis que a vida os obriga a assumir.
Quando ainda enxergava, Mateo Blanco (Lluís Homar) era diretor de cinema e usava o pseudônimo Harry Caine para assinar seus roteiros. Depois da cegueira, assumiu o pseudônimo como nome e passou a se dedicar exclusivamente à função de roteirista. Bem sucedido na profissão, Harry parece estar bem adaptado a sua deficiência, escrevendo com a ajuda do filho da sua agente, Diego (Tamar Novas), e transando esporadicamente com lindas moças que lhe ajudam a atravessar a rua. Entretanto, a visita de um jovem diretor (Rubén Ochandiano), que faz questão de que Harry escreva o roteiro de seu próximo filme, traz a tona traumáticas lembranças. Harry descobre que o jovem diretor é filho do empresário Ernesto Martel (José Luis Gómez), que morrera recentemente, e que foi responsável pela produção de seu último filme como diretor. Ao recusar o trabalho, ele decide contar a Diego o mistério em torno do sujeito que o visitara. Paralelamente a apresentação de Mateo, o roteiro nos introduz a história de Lena (Penélope Cruz), secretária de Ernesto Martel que se vê obrigada a pedir ajuda ao chefe para financiar o tratamento médico de seu pai, liberado para morrer em casa pelo sistema público de saúde. Através da história que Harry conta a Diego, mergulhamos dramaticamente na história da produção de seu último filme, intitulado “Garotas e Malas”. Ao saber da produção do filme, Lena decide fazer teste para protagonizá-lo, mesmo contra a vontade de Ernesto Martel, agora seu marido. Sem conseguir impedi-la, o enciumado marido passa a produzir o filme e encarrega seu filho de filmar os bastidores da gravação. A partir daí acompanhamos o trágico romance entre Mateo / Harry e Lena.
Através de um roteiro melodramático bem amarrado, Almodóvar constrói personagens bastante complexos e misteriosos. Em Abraços Partidos, não há cena sem propósito. O roteiro parece levar ao limite a tradição clássica de construir os personagens através de suas ações. Mesmo personagens que aparecem pouco, como os pais de Lena, conseguem ser arrebatadores na relação construída por Almodóvar entre complexidade e objetividade da mise en scène, competência do elenco e encadeamento eficaz entre cenas. O impacto visual do estado de saúde do pai, aliado a destruição emocional da mãe, que não sabe o que fazer quando o médico envia o marido para morrer em casa (vomitando sangue como se tivesse arrebentando por dentro), justificam qualquer atitude da personagem interpretada por Penélope Cruz para amenizar o sofrimento da família. Mesmo que o seu sacrifício seja se tornar esposa do patrão, um homem bem mais velho, possessivo, e que se opõe quando surge a oportunidade de ela realizar o seu grande sonho de ser atriz, numa espécie de prostituição velada.
Ainda que tudo acabe convergindo para intensificar a química do amor proibido entre Lena e Mateo, o mais interessante dessa obra de Almodóvar é a auto-suficiência das subtramas. Seja através da ambigüidade da personalidade do filho gay de Ernesto Martel, ou dos segredos envolvendo Judit, a agente de Harry / Mateo, todos os personagens acabam se tornando interessantes para o espectador. Um exemplo da forma com que Almodóvar atribui relevância aos personagens secundários se dá em um flashback, que mostra o dia em que Harry sai do hospital cego, acompanhado de Judit e de seu filho, Diego. Vemos nessa cena, por um lado, o quão difícil será a vida de Harry a partir daquele momento, pela dificuldade que ele tem para descer uma simples escada e, por outro, temos noção da importância que o menino Diego tem na sua vida, por não ser um simples ajudante na hora de escrever roteiros, mas por estar ao seu lado desde que era uma criança. Mas Diego é ainda mais que isso, tem um trabalho paralelo como DJ em uma casa noturna e se mostra um habilidoso argumentista quando apresenta a Harry sua idéia de fazer um roteiro sobre vampiros.
Esse filme sobre vampiros, aliás, é uma das auto-referências que Abraços partidos faz ao cinema e a própria obra de Almodóvar. Nesse caso específico, é impossível não fazer a relação entre a história de Diego com a série campeã de bilheteria do momento, ainda mais pelo fato de Judit, na cena anterior, ter encomendado a Harry o roteiro de um filme de terror para adolescentes. Essa brincadeira com a indústria cinematográfica está presente durante todo o filme, tanto nessas cenas específicas, como no próprio enredo de Abraços Partidos, que utiliza a produção do filme “Garotas e Malas” como pano de fundo para o desenlace da narrativa, mas também como referência explícita aos primeiros filmes de Almodóvar. Não bastasse a solidez da narrativa, o espectador ainda é brindado com essa intertextualidade que brinca com o fato de Almodóvar estar fazendo filmes tão diferentes dos que fez nos anos 80, que pode tratar o antigo Almodóvar como uma outra pessoa.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

TRÊS REIS

Uma lembrança turva. Tinha ido ao cinema assisti-lo graças a uma matéria elogiosa da revista SET. Gostei muito do filme, mas lembro que fiquei um pouco desapontado porque havia convidado meu pai pra assistir um filme sobre a guerra do golfo que inicia com uma frase mais ou menos assim: 1991, final da guerra do golfo. Seguida por soldados americanos comemorando o fim da guerra. Guerra de bombardeios da qual seus fuzis não participaram. Aqui o tema, a beleza e a ironia. Assistindo agora em vhs, compreendo ainda mais o fato de ele estar na lista daqueles 1001 filmes que o cara tem que assistir antes de morrer. A imprensa procurando reportagens de guerra para ganhar o Emmy, fazendo acordos e, literamente, dando a bunda pro alto escalão pra conseguir informações privilegiadas. Soldados entediados que acham na bunda - literalmente - de um iraquiano o mapa para um punhado de ouro e um pouco de ação. No caminho até o ouro, eles aprendem técnicas bélicas com uma vaca-bomba, dão uns tiros em bolas de futebol americano, descobrem que o presidente Bush abandonou os iraquianos à própria sorte, salvam e são salvos por rebeldes, descobrem que não existe Lexus conversíveis, são presos, questionam os motivos da guerra, enfim, repensam suas prioridades e aprendem a ser homens. Tudo isso aparece através de uma estética contemporânea, cores saturadas, câmera ágil, referências à cultura pop, efeitos especiais artesanais assustadoramente reais e polêmicos - atenção especial para uma cena que mostra os órgãos internos de um personagem que acaba de ser ferido - e um roteiro clássico que combina irônia e agilidade. Uma outra curiosidade é a presença de Spike Jonze atuando ao lado de George Clooney, Mark Walbergh e Ice Cube. Ele já havia feito um soldado em | O RESGATE DO SOLDADO RYAN |, mas aqui seu personagem é muito mais importante, um soldado medroso e engraçado que embarca na empreitada ao lado dos protagonistas. Depois de assisti-lo fui ver o currículo do diretor, David O. Russel, e descobri que ele só dirigiu mais um filme depois desse, o engraçado e confuso | HUCKABEES | e foi ator no filme | ADAPTAÇÃO |, que Spike Jonze dirigiu em 2002. Teria que assistir de novo | ADAPTAÇÃO | pra ver que personagem ele faz, mas provavelmente vá continuar perdendo na comparação com os dois Spike Jonze: o diretor e o ator. É uma pena porque seria legal se ele tivesse feito alguns outros | TRÊS REIS |.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

ALI

Férias de freelancer. Sem trabalho mas de plantão. Na prateleira decido pegar um vhs. Tinha | ALI | que não sabia ser de Michael Mann. Não lembrava, pelo menos. Tantos comentários se referindo à intepretação de Will Smith talvez tenham deslocado a atenção. Enfim, tomei coragem de assisti-lo sabendo que não seria uma biografia tradicional. Bem feito! Câmera na mão e enquadramentos cuidadosamente desleixados. Muito close, variação de foco e nervosismo da câmera. Lutas que fogem da televisao. Economia e eficiência na construção de personagens secundários, exemplificado pela apresentação de George Foreman - sem dar nenhuma fala ao personagem consegue forjar a figura de um monstro, com socos que fazem a câmera e os auto-falantes tremerem. Sem dúvida, um adversário à altura de Ali, ao contrário de seu adversário anterior, que havia lhe vencido através de um acordo velado entre os lutadores. Aqui outra virtude da abordagem de Mann. Cassius Marcellus Clay Jr., mais tarde batizado Muhammad Ali-Haj, teve uma uma vida bastante conturbada, com posições políticas e comportamento nada tradicionais, foi preso, perdeu sua liçença para lutar e, por consequência, seu cinturão. O recorte narrativo aborda justamente esse período da sua vida, o início da fama, a decandência e a ressureição, na famosa batalha em terras africanas, organizada pelo cabeludo e polêmico Don King. A idolatria ou não a Muhammad Ali parte do espectador, depende da identificação ideológica e comportamental com a postura do lutador em relação a religião, racismo, mulheres, adversários e, especificamente, em relação a Guerra do Vietnã.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

VHS

Há alguns meses passei em uma locadora que estava vendendo fitas VHS a R$ 0,80. Gosto de VHS porque a cada dia os filmes vão perdendo seu suporte físico. Com um DVD ou Blueray ainda locamos alguma coisa. Conseguimos segurar o filme nas mãos. Mesmo assim o processo é digital. E é questão de pouco tempo pra que não tenhamos nem mais isso. Apenas arquivos hospedados em algum HD virtual sabe-se lá aonde. No VHS, sabemos que dentro daquela caixa tem uma fita, que vai girando, girando, e no final precisa ser rebobinada. Comprei cerca de 100 filmes. Alguns que eu gostava, alguns que eu ainda não tinha visto e outros que achei que pudesse ser engraçado dizer que tinha. Uma coisa me preocupava: eu não tinha mais vídeo-cassete. Minha namorada fez questão de resolver esse problema. Num gesto lindo e emocionante, anunciou nos classificados do jornal seu interesse na compra de um aparelho. Comprou e me deu de aniversário. Nesse blog espero escrever algo sobre alguns desses filmes. Mas também sobre outros, que eu venha assistir em qualquer outro formato e resolução. Mesmo que eu não possa tocá-los. Nem rebobiná-los.